A alma não pode ser a última a falar
- Edição JA

- há 1 dia
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Há dias em que a vida parece falar mais alto do que a nossa fé. A notícia chega sem aviso, uma porta se fecha, um projeto fracassa, uma perda acontece, e a alma começa a conversar consigo mesma. Esse diálogo interior pode ser perigoso, porque, quando estamos sofrendo, nem sempre aquilo que sentimos é aquilo que devemos acreditar. O salmista conhecia essa batalha e, por isso, em vez de simplesmente ouvir a própria alma abatida, decidiu interrogá-la: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus...” (Salmo 42.5). Ele não negava a tristeza, não fingia que estava tudo bem e não vestia uma máscara religiosa para esconder a dor. Mas também não permitia que a dor tivesse a última palavra.
Talvez esteja aí um dos grandes segredos da maturidade espiritual: nem tudo o que sentimos deve governar aquilo em que acreditamos. A vida não é perfeita e, talvez, parte do nosso sofrimento nasça justamente da insistente tentativa de encontrar um caminho que jamais existirá. Queremos decisões sem riscos, escolhas sem consequências, relacionamentos sem decepções e um futuro sem surpresas. No entanto, a Bíblia não apresenta homens que percorreram estradas perfeitas; ela apresenta um Deus perfeito acompanhando homens imperfeitos. José foi vendido pelos irmãos, Davi fugiu de seus inimigos, Pedro negou Jesus e Paulo conheceu prisões e perseguições. A história de todos eles teve capítulos difíceis, mas nenhum deles descobriu que um capítulo difícil significa que o livro terminou.
É por isso que Romanos 8.28 continua sendo uma das grandes afirmações da esperança cristã: Deus pode fazer cooperar para o bem até mesmo aquilo que jamais teríamos escolhido viver. Isso não significa que toda dor seja boa, nem que o sofrimento deva ser romantizado. Significa, porém, que Deus não perde o controle quando nós perdemos, e que acontecimentos dolorosos não possuem, por si mesmos, autoridade para definir o significado final da nossa história. Há uma diferença profunda entre reconhecer a realidade da adversidade e entregar-lhe o direito de escrever o nosso futuro.
Também existem momentos em que precisamos aprender a olhar novamente para aquilo que permaneceu. A dor possui uma tendência natural de iluminar aquilo que perdemos e deixar na sombra aquilo que ainda possuímos. Ficamos tão concentrados na porta que se fechou que deixamos de perceber as outras possibilidades; tão atentos à ausência que quase esquecemos as misericórdias que continuam presentes. Jeremias descobriu isso em meio à devastação: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos... renovam-se cada manhã” (Lamentações 3.22-23). Talvez não tenhamos tudo o que desejamos, mas ainda temos aquilo que Deus decidiu preservar. E, muitas vezes, é justamente a partir do que permaneceu que encontramos forças para recomeçar.
Outra grande descoberta da vida espiritual é reconhecer que nem tudo está sob nosso controle. Talvez boa parte da nossa ansiedade nasça justamente da tentativa de controlar aquilo que jamais esteve em nossas mãos. Queremos antecipar o futuro, garantir resultados, impedir perdas e compreender completamente os caminhos pelos quais passamos. Mas Jesus perguntou quem, por meio de suas preocupações, conseguiria acrescentar algo à própria existência. A pergunta continua atual. Há preocupações que não resolvem os problemas; apenas acrescentam novos pesos à alma. A sabedoria consiste em reconhecer aquilo que devemos fazer e aquilo que precisamos entregar. Pedro aconselhou: “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (1 Pedro 5.7).
Finalmente, precisamos aprender a olhar para o horizonte sem tentar caminhar até ele de uma única vez. O futuro pode ser grande demais para hoje, mas o próximo passo quase sempre cabe diante dos nossos pés. Jesus disse: “Basta a cada dia o seu mal” (Mateus 6.34). O cristão não precisa resolver a vida inteira nesta manhã. Não precisa compreender agora todos os mistérios do caminho. Precisa, antes de tudo, ser fiel no lugar onde está e caminhar o passo que Deus colocou diante dele. Amanhã terá suas próprias batalhas, suas próprias perguntas e, certamente, suas próprias necessidades. Mas Deus continuará sendo Deus.
Talvez a grande força não esteja em repetir continuamente para nós mesmos: “Eu consigo”. Há dias em que, honestamente, não conseguimos. Há pesos que excedem nossas forças, circunstâncias que não sabemos explicar e sofrimentos diante dos quais nossa coragem parece pequena. A verdadeira fé começa quando reconhecemos essa limitação e descobrimos que nossa esperança não está exclusivamente na força que conseguimos encontrar dentro de nós, mas na graça que encontramos acima de nós. Como escreveu Paulo: “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Filipenses 4.13). A força cristã não é a celebração da autossuficiência; é a descoberta de que Deus permanece suficiente quando nós reconhecemos nossas próprias fraquezas.
A alma continuará, de tempos em tempos, perguntando se vale a pena continuar. Quando isso acontecer, talvez seja necessário responder-lhe novamente: o caminho não é perfeito, a vida nem sempre é compreensível e a dor é real, mas Deus continua presente. Nem tudo está sob nosso controle, porém nada escapa completamente ao Seu olhar. Podemos não enxergar o final da estrada, mas podemos caminhar o trecho que está diante de nós. E, enquanto Deus permanecer no controle da história, enquanto Suas misericórdias continuarem a se renovar e enquanto a esperança ainda puder encontrar morada no coração humano, a alma jamais poderá ser a última a falar.
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Carlos Alberto de Moraes
Pastor e Jornalista
Casado com Agnes
Pai da Luciana, da Talita e da Letícia




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