Onde está todo mundo? Uma resposta científica e cristã sobre extraterrestres
- Edição JA

- 18 de jun.
- 50 min de leitura
Kelson Mota T Oliveira
“... as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados.”
(Mc 13.25)
Desde Demócrito, no distante século V antes de Cristo, que aventara a possibilidade da existência de outros mundos, de tempos em tempos, alguém levanta a incômoda suspeita que talvez não estejamos sós no universo. É uma questão delicada e um tanto volátil e, curiosamente, não se restringe apenas à ficção, mas envolve também ciência, filosofia e teologia e, por tabela, toda a gama das ciências humanas. E nos últimos meses a questão sobre a existência de extraterrestres (ETs) tem saído da mera suspeita e tomado proporções políticas inéditas.
Para quem não está antenado com as últimas notícias sobre alienígenas, a recente pressão política nos EUA para a desclassificação de arquivos secretos sobre os chamados Fenômenos Anômalos Não Identificados (UAP, em inglês), os antigos OVNIs, reacendeu o debate mundial sobre vida extraterrestre. Dois lotes de documentos, até então secretos, sobre avistamentos de UAPs foi disponibilizado na íntegra pelo governo norte-americano (até o presente momento da escrita desse artigo)1. Como consequência imediata, as especulações sobre a natureza desses fenômenos foram em muito intensificadas e teorias de todo tipo e tamanho têm pipocado a cada dia nas redes. Vários ufólogos, assanhados com o momento, passaram a declarar nas redes que o contato com os ETs estaria muito próximo ou já estariam entre nós. Com a vinda para a Terra trariam paz, progresso tecnológico, fim das mazelas, e mesmo um processo de evolução espiritual (com erradicação dos revoltosos e dos fundamentalistas religiosos não evoluídos). Um tipo de amálgama canhestra entre esperança extraterrestre e apocalipse alienígena.
Há especulações e narrativas para todo gosto. Algumas são mote para boas risadas ou conversas de bar, como a que teoriza que o ET de Varginha é primo dos ETs de Roswell, a fixação dos ETs por abdução de vacas, a predileção por pichações em milharais ou mesmo a do gaúcho abduzido por aliens para conhecer uma civilização utópica. Outras, entretanto, não arrancam risadas pois resvalam na fé (ou falta dela) de milhões de pessoas e geram confusão e perplexidade.
Entre essas teorias (se é que podemos chamar de teorias), as cinco mais conhecidas são: a) Jesus era um extraterrestre e seus milagres oriundos de tecnologia alienígena avançada; b) Os anjos são visitantes de outros planetas e os querubins naves espaciais (e eles foram os responsáveis por semear a vida na Terra); c) Os nefilins eram mestiços, frutos do relacionamento entre humanos e alienígenas; d) O arrebatamento será uma abdução orquestrada por ETs com apoio dos governos alinhados com o Anticristo, para explicar o desaparecimento repentino de milhões de cristãos da face da terra; e) Os avistamentos de UAPs são manifestações de seres interdimensionais, com o intuito de enganar a humanidade (seres espirituais estariam se passando por extraterrestres), entre tantas outras.
Naturalmente que essas narrativas são altamente especulativas, e surgem da mistura entre ficção científica de terceira categoria, desconfiança da classe política, literatura conspiratória e leituras bíblicas completamente fora do contexto histórico e teológico. No entanto, trazem em seu bojo algo de perigo, porque substituem a autoridade das Escrituras por palpites sensacionalistas, trazendo confusão e perplexidade.
Uma pessoa honesta ao ser exposta a essas especulações dirá “Hoje, qualquer luzinha no céu e um versículo mal lido é motivo para uma teologia alienígena a ser discutida em um podcast suspeito. Quem acredita nisso?”. Por outro lado, uma pessoa um tanto mais simplória e crédula (ou paranoica) terá uma reação diferente “Tá vendo? Eu sempre desconfiei! Os ETs já estão entre nós faz tempo! Vieram nos salvar”. Lamentavelmente estamos atravessando um período em que o segundo grupo é maioria, especialmente nas redes sociais e mesmo dentro de algumas igrejas. Assim, diante desse cenário de crescente especulação, o cristão é chamado a refletir bíblica e racionalmente sobre duas questões: existe vida extraterrestre? Qual deve ser nossa compreensão acerca dos relatos e registros desses fenômenos?
Examinemos ambas as questões à luz da ciência e das Escrituras, pois há muito a ser considerado a partir dessas duas lentes da verdade. Começo pela análise científica.
1. AS CONSIDERAÇÕES CIENTÍFICAS
(a) O paradoxo de Fermi e o silêncio extraterrestre
O problema acerca da possibilidade da existência de vida em outros planetas não começa com uma dúvida científica, mas com um paradoxo epistemológico:
“Se o universo é tão vasto, a existência de vida em outros planetas será inevitável. Não há razão para a vida existir somente na Terra. Entretanto, se o universo é, por sua imensidão, abundante em vida, por que esta se mostra tão rara, até mesmo em nossa vizinhança solar?
Quem melhor definiu esse paradoxo foi Enrico Fermi no verão de 1950. Em uma conversa informal, no Laboratório Nacional de Los Alamos, sobre a imensidão do universo e a inevitabilidade da vida, teria perguntado a seus interlocutores: Where is everybody?2 Essa pergunta tão simples – onde está todo mundo? –, tornou-se a base do que ficou conhecido como Paradoxo de Fermi, sendo considerado um dos mais intrigantes mistérios da ciência moderna. Em termos formais o paradoxo toma a seguinte estrutura:
“Se o universo possui milhões de bilhões de estrelas, e muitas delas apresentam planetas em suas órbitas, certamente alguns apresentarão condições semelhantes à Terra. Logo, a vida poderia surgir em parte desses mundos, e alguns poderiam desenvolver civilizações inteligentes. Várias civilizações poderiam desenvolver tecnologias avançadas. Em escalas de milhões de anos, algumas dessas civilizações avançadas poderiam colonizar vários sistemas estelares. Se tudo é provável, dado o tempo de existência do universo, por que não temos quaisquer sinais delas? ”
Em resumo: se existem extraterrestres e o universo é antigo, paradoxalmente por que não os encontramos? Não é uma pergunta fácil de responder.
O paradoxo admite várias respostas, desde a consideração que a vida é extremamente rara (mesmo para padrões universais), passando por civilizações que se autodestruíram e não mais existem, ou que estão muito longe para dar qualquer sinal de vida, ou que não querem conversa conosco (tenho uma cínica predileção por essa possibilidade), até mesmo que talvez realmente estejamos sozinhos nessa vastidão cósmica. Corroborando com este último cenário, há a ausência de sinais confirmados após décadas de busca pelo Programa de Busca de Inteligência Extraterreste (SETI, em inglês).
Para termos uma ideia da dimensão deste silêncio espacial, em quase 120 anos de transmissão eletromagnética humana ao espaço, há uma bolha de rádio de raio aproximado de 110 anos-luz ao redor da Terra. É uma esfera colossal como milhares de sistemas estelares contidos em seu volume. Apesar da gigantesca escala, seu tamanho é ínfimo perto das dimensões da nossa galáxia (estimada em 100 mil anos-luz de diâmetro). Nessa magnitude, a inexistência de sinais poderia ter outras causas além da exclusividade da vida na Terra. Poderia derivar tanto da fraca força dos sinais emitidos do planeta Terra (que não conseguiriam chegar a civilizações distantes), ou pouco tempo decorrido para uma resposta extraterrestre (entre receber, decodificar, responder um sinal da Terra e este chegar ao nosso planeta, o tempo decorrido poderia estar na faixa de séculos), ou mesmo da possibilidade que não haja nenhuma civilização tecnológica dentro do raio de alcance de nossos sinais eletromagnéticos3.
Mas sejamos honestos, o paradoxo de Fermi, ou a falta de sinais do SETI, não prova ou refuta a possibilidade de vida extraterrestre, apenas evidencia um imenso e incômodo silêncio cósmico, sobre o qual não podemos explicar sem usar de extrapolações ou inferências sem lastro. À luz dos dados atualmente disponíveis, a hipótese extraterrestre permanece mais próxima da especulação teórica do que da evidência empírica.
(b) A equação de Drake e a probabilidade de vida na Via Láctea
Devido a imensidão do universo, em termos estatísticos, parece improvável que a Terra seja o único berço de vida em todo o cosmos. Esforços foram envidados para dar peso de evidência a essa inferência estatística. Em 1961, Frank Drake propôs uma equação de formulação empírica visando estimar o número de civilizações tecnologicamente capazes de comunicação na Via Láctea, levando em conta diversos fatores, baseados em pressupostos teóricos4. Foi um sucesso na época (e ainda o é em alguns círculos), pois estimativas otimistas apontavam para mais de dez mil civilizações capazes de se comunicar em nossa galáxia. Ao mesmo tempo, quando se usava estimativas mais conservadoras na mesma equação, os resultados eram números próximos de um, ou menores que um, sugerindo que "sim, estamos sozinhos". Devido a essa “flutuação” estatística, muitos cientistas consideram a equação mais útil como ferramenta de reflexão científica do que como evidência confiável.
No entanto, a hipótese da existência de vida fundamentada no argumento do tamanho do universo, pelo mesmo viés de Drake, ainda arregimenta defensores. Talvez seu mais famoso expoente seja Carl Sagan. É dele a frase: “O universo é um lugar bem grande. Se existir somente nós, parece um terrível desperdício de espaço!”5. Ainda que poderosa e arrebatadora, temos que ter cuidado ao citá-la como prova inconteste de vida extraterreste (ou a inexistência de Deus, como era o caso da provocação de Sagan), pois essa frase embute alguns erros de lógica em sua construção6. A principal delas é a non sequitur, quando a conclusão não decorre necessariamente das premissas, posto que a vastidão do universo não implica logicamente na existência de vida. Outra é a extrapolação indutiva indevida, quando se infere uma conclusão universal a partir de uma única amostra conhecida (no caso, a vida na Terra).
É razoável supor que a imensidão do universo aumenta o número de oportunidades para a vida surgir, e é legítima essa linha de pensamento. Todavia, isso não demonstra (e nem sequer é uma prova) que a possibilidade de surgimento da vida alhures seja suficientemente alta para torná-la inevitável. A conclusão de que “é certo que haja vida extraterreste” não decorre da premissa do tamanho do universo, mas de uma extrapolação injustificada. Ou seja, por mais amplo que seja o cosmos, isso não garante que toda e qualquer coisa poderá ocorrer em algum lugar7. Essa conclusão vai muito além do que os dados disponíveis permitem afirmar.
(c) As dificuldades da geração abiogênica da vida e o grande filtro
Outro dilema para a existência de vida em outros planetas são as bases naturalistas para uma origem abiogênica da vida. A vida surgiu da não-vida, ao acaso, em uma série de eventos improváveis, afirmam os defensores da evolução química da vida. Contudo, por tudo o que já sabemos de química, física, biologia e matemática, as teorias que defendem essa hipótese apresentam excesso de lacunas sem qualquer explicação, uma montanha de perguntas que não admitem respostas e, experimentalmente, nenhuma evidência decisiva.
Essa enorme improbabilidade a ser vencida para que ocorra o surgimento da vida, em termos cosmológicos, tem um nome: o grande filtro8. De forma resumida, para uma civilização florescer, supõe-se que deverá vencer todas as etapas improváveis, ou filtros: a evolução química, seguida de uma evolução darwiniana, surgimento de inteligência tecnológica e, por fim, o filtro civilizacional. O primeiro filtro é a própria abiogênese, o processo onde a matéria não-viva dá um salto fenomenológico para a matéria bioquímica complexa, organizada em alguma forma de protovida simples, capaz de armazenar informação, metabolizar energia e reproduzir-se. Embora haja diversas propostas científicas que visam explicar a origem abiogênica da vida, nenhuma delas demonstrou experimentalmente como a vida surgiu espontaneamente a partir da química prebiótica em condições naturais. Continuam como propostas à espera de uma comprovação. Assim, considerando que a vida tenha surgido em algum momento do passado da história da Terra, sua ocorrência exigiu uma combinação altamente improvável de condições físicas, químicas e ambientais ao longo de milhões de anos. Como consequência, a maioria dos planetas potencialmente habitáveis jamais ultrapassaria esse primeiro filtro, tornando a vida complexa e as civilizações tecnológicas muitíssimo mais raras do que frequentemente se imagina.
O segundo filtro constitui-se na transição da vida simples para a complexa. É o surgimento de células complexas, eucarióticas, com informação codificada em seus núcleos, capazes de se replicar e evoluir para sistemas multicelulares maiores e mais variados, como plantas e animais. Nesse cenário, o surgimento de sistemas celulares complexos, com vasta informação armazenada, se constitui em evento raríssimo na história da vida, sem qualquer explicação plausível conhecida pela ciência atual. Muitos planetas poderiam ter estacionado nesse filtro, abrigando apenas vidas simples, microscópica, sem jamais avançar para biossistemas complexos. Esse cenário também aponta para um filtro extremamente difícil de vencer.
O terceiro filtro é o surgimento da inteligência. Mesmo que haja vida complexa, essa terá que evoluir por milhões de anos a ponto de surgir inteligência capaz de gerar tecnologia – a chamada inteligência tecnológica. A simples existência de vida complexa não é garantia do surgimento dessa classe de vida. Por inteligência tecnológica me refiro ao desenvolvimento da linguagem, pensamento abstrato, capacidade de construir ferramentas, acumular e transmitir conhecimento e por fim avançar para um refinamento científico tal que consiga modificar seu ambiente. Como exemplo, se imaginarmos um quadro em que os seres humanos sejam instantaneamente extintos da Terra, ainda continuaria a haver vida no planeta, porém nenhuma civilização inteligente. Assim, o desenvolvimento de uma civilização tecnológica robusta depende de uma combinação extremamente rara de fatores biológicos e ambientais, em um longo período de tempo (incluindo aí os fatores externos à biosfera do planeta). Vencer esse terceiro filtro seria muitíssimo mais difícil do que a narrativa darwiniana de Parque dos Dinossauros faz parecer.
Por fim, temos o último filtro. Ainda que uma civilização tecnológica floresça, deverá sobreviver tempo suficiente para vencer os obstáculos que a confinam em seu planeta e se aventurar no espaço interestelar. Ou seja, essa civilização deverá sobreviver às próprias limitações, riscos e males decorrentes do ambiente e do avanço tecnológico. Guerras nucleares, guerras biológicas, pandemias, esgotamento de recursos naturais, colapsos ambientais, catástrofes naturais, fomes, desilusão ontológica, impactos de asteroides, inteligência artificial descontrolada, entre outros fatores, poderia interromper seu desenvolvimento (ou mesmo sua existência) e incapacita-la de alcançar as estrelas. Essa etapa funcionaria como um filtro extremamente difícil, talvez intransponível, para o aparecimento e desenvolvimento de civilizações avançadas capazes de viajar entre as estrelas e se comunicar com outras raças. Se essa for a realidade da maioria das civilizações tecnológicas, pouquíssimas civilizações poderiam ser detectadas. Vale notar que três desses filtros estão, de certa forma, em nosso passado e o quarto em nosso futuro. Estamos sobrevivendo com dificuldades ao terceiro filtro. Será que sobreviveremos ao quarto?
Algumas pessoas, como forma de contornar esses filtros (inclusive em relação ao enigma da existência de vida na Terra), se utilizam de um argumento do tipo deus ex machina: a vida no universo não seria rara, pois teria sido projetada e semeada por aliens altruístas e espiritualmente evoluídos. Ou seja, defendem que a vida não surgiu por acaso, mas foi semeada, guiada e protegida por extraterrestres (e que virão nos salvar de nós mesmos). Claramente uma imitação barata do criacionismo bíblico, pintado com cores alienígenas. Ainda que seja sedutor, essa narrativa só torna o argumento ainda mais frágil. Nessa linha de pensamento, a dificuldade sobre a origem da vida, com todos os seus filtros, é empurrada para frente sem qualquer possibilidade de resposta última (se foram os extraterrestres que criaram a vida na Terra, como a vida surgiu no planeta alienígena? Como superaram os filtros?). O fato é que o surgimento da vida não pode ser explicado de forma reducionista, nem aqui na Terra, nem em qualquer outro planeta do universo. Se há vida aqui na Terra, contra todas as probabilidades, a chance de ocorrência de outro evento similar alhures imprime uma improbabilidade ainda maior.
(d) Se há extraterrestres, eles conseguiriam chegar à Terra?
Vejamos agora a questão sobre outro ponto de vista, e consideremos que há de fato civilizações extraterrestes. Nesse cenário fica em aberto uma questão: elas conseguiriam chegar em nosso sistema solar e entrar em contato com a civilização humana? Uma resposta intempestiva tascaria um redondo SIM. No entanto, as coisas não são tão simples assim. A forma como o universo é estruturado constitui-se em um forte impeditivo para um contato imediato, ou comunicação em tempo real, com outra civilização alienígena. Explico.
O cosmos é imensurável, e suas distâncias literalmente inimagináveis. Percorre-las está muitíssimo além do escopo de preservação de qualquer forma de vida material, terrena ou extraterrestre. Como se a vastidão do universo já não representasse um desafio formidável, o universo impõe um limite absoluto de velocidade para trafegar por ele. Esse limite é a velocidade da luz.
Mesmo que imaginemos uma superastronave equipada com tecnologia alienígena avançadíssima, construída com materiais exóticos e capaz de atingir velocidades extraordinárias, ela ainda permaneceria sujeita aos limites impostos pela velocidade da luz. A própria relatividade especial é taxativa ao demonstrar que nenhum objeto material pode alcançar e manter essa velocidade, uma vez que requereria energia infinita para acelerá-la. Sem citar os efeitos dilatação temporal relativística a que seus ocupantes sofreriam, o tempo excruciante da viagem em velocidades menores que a da luz, e toda a radiação cósmica que estariam submetidos no trajeto. Não é questão de engenharia ou tecnologia, é um impeditivo físico intransponível, seja aqui na Terra ou em qualquer planeta da Grande Nuvem de Magalhães. Aqui vale uma ilustração.
A estrela mais próxima da Terra está a 4,37 anos-luz. Mesmo se conseguíssemos construir uma nave que mantivesse o pico de velocidade da sonda Parker Solar Probe (cerca de 690.000 km/h em uma manobra de estilingue)9 levaríamos aproximadamente 6.800 anos para chegar a Alpha Centauri, quase o tempo de toda a história registrada da civilização humana. Aliás, com a tecnologia atual, a Voyager 1 (atualmente a mais rápida com velocidade máxima de 61 mil km/h), levará cerca de 75 mil anos para chegar lá. Considerando que fossemos capazes de construir uma nave que atingisse impressionantes 1% da velocidade da luz (cerca de 3000 km/s), a viagem até essa estrela levaria um mínimo de 437 anos (não somando nessa conta o tempo de aceleração e desaceleração). Ou seja, essa nave simplesmente não conseguiria cruzar o vasto oceano de estrelas que nos rodeia em um tempo que viabilize uma comunicação minimamente relevante entre duas civilizações inteligentes (se lá houver uma). Seria um desafio hercúleo tanto para terrestres quanto para os alpha-centaurers.
Em resumo, para todos os efeitos, ainda que existissem extraterrestres, estes não poderiam fazer frequentes excursões à Terra para abduzir vacas, entrevistar humanos ou fazer pichações em plantações de milho. Mesmo que uma civilização empreendesse tal jornada (para abduzir vacas?), o contato com seu mundo de origem provavelmente se tornaria inviável, e o retorno dificilmente ocorreria em uma escala temporal significativa para seus habitantes.
(e) E o motor de Alcubierre, não seria uma forma de viajar para outras estrelas?
Alguns entusiastas de ficção científica defendem que a imensidão do espaço não seria um empecilho, pois cedo ou tarde alguém construíra um motor de dobra espacial, e citam o trabalho de Alcubierre como um exemplo de um dispositivo factível capaz de vencer as distâncias estelares. Motor de dobra? Alcubierre? O que é isso?
Em 1994, o físico mexicano Miguel Alcubierre propôs um motor de dobra, que ficou conhecido como Alcubierre Warp Drive10. O motor foi concebido a partir de algumas soluções possíveis das equações da relatividade geral em uma métrica específica, proposta pelo próprio Alcubierre. Em tese, uma nave equipada com esse tipo de motor faria com que o próprio espaço-tempo se movesse ao redor, por uma deformação geométrica do espaço, transportando-a de um ponto a outro do universo em velocidade além dos limites relativísticos. Em manobra de dobra, o espaço à frente da nave seria comprimido e o espaço anterior seria expandido, envolvendo a nave em uma bolha de dobra (warp bubble), que “surfaria” nessa ondulação local do espaço. A nave permaneceria parada dentro da bolha, enquanto o espaço ao redor dela seria deformado, transportando a bolha de um ponto a outro do espaço. Interessante e empolgante, porém...
Ainda que o conceito seja atraente e as soluções de Alcubierre consistentes, há gigantescos problemas teóricos sem solução (sem falar na construção real do dispositivo de dobra). O motor exigiria enormes quantidades de energia (inclusive energia negativa, que cito mais a frente), formas exóticas de matéria (uma matéria com densidade negativa, nunca observada na natureza, mas apenas especuladas teoricamente) e a manipulação da deformação espacial (sequer observado experimentalmente). Além disso, ninguém tem a mínima ideia de como criar a bolha e nem como liga-la, desliga-la e controlá-la, com um agravante: a nave de dobra poderia transformar-se em uma arma involuntária, acumulando partículas e radiação durante a viagem e liberando-as em um intenso pulso energético ao chegar ao destino11. Ou seja, o projeto mostra-se impraticável, além do fato, até agora, não há nenhuma comprovação que uma bolha warp possa existir fisicamente.
(f) E os buracos de minhoca?
Argumentos semelhantes às dificuldades do motor de Alcubierre podem ser aplicados a hipótese do uso de buracos de minhoca (wormholes) para viagens interestelares. Nessa hipótese, os buracos de minhoca são apresentados como um atalho factível para vencer as imensas distâncias cósmicas. Muitos filmes de ficção científica usam esse expediente para explicar os saltos de um sistema estelar a outro. Mas, o que exatamente é um wormhole e por que essa hipótese também deve ser descartada?
Em 1935, Albert Einstein e Nathan Rosen publicaram um artigo mostrando que as equações da relatividade geral permitiam a existência de uma estrutura que conectava duas regiões distintas do espaço-tempo, por meio de um túnel gravitacional. Essa estrutura ficou conhecida como ponte Einstein-Rose12. Contudo essa ponte não era transitável e não permitia a passagem de matéria (menos ainda de uma nave espacial). Mantê-la aberta e estável exigiria quantidades astronômicas de energia. Cerca de cinquenta anos depois, em 1988, Morris e Thorne, teorizaram a partir do conceito de Einstein e Rose, uma ponte transitável (os wormholes transitáveis), porém para mantê-la aberta também seria necessárias gigantescas quantidades de energia negativa e o uso de matéria exótica 13-14. Embora efeitos de energia negativa tenham sido observada em experimentos quânticos, como o efeito Casimir15, ela ocorre em escalas microscópicas e está infinitamente distante das quantidades necessárias para sustentar um wormhole transitável (ou um motor de dobra de Alcubierre). Mas o mesmo não pode ser dito da matéria exótica, uma vez que este estado/forma da matéria sequer tem comprovação pela física moderna (e os wormholes transitáveis dependem exclusivamente dela).
Ainda que fosse possível criar esses wormholes, as mesmas soluções que os concebem também mostram que são inerentemente instáveis. Qualquer matéria, mesmo em microescala (a não ser em presença da suposta matéria exótica, adequadamente distribuída), que tentasse atravessá-los tenderia a provocar seu colapso quase instantâneo16. Stephen Hawking, em um artigo de 1992, demonstrou que efeitos quânticos também desestabilizariam essas estruturas e teorizou que um buraco de minhoca transitável poderia criar um paradoxo temporal, algo que a própria estrutura do universo se encarregaria de não permitir17.
Em resumo, um buraco de minhoca seria um "atalho" no espaço-tempo, conectando dois pontos extremamente distantes por meio de um túnel gravitacional. Ainda que sua concepção derive de algumas soluções das equações da relatividade geral, nunca foram observados, detectados ou produzidos experimentalmente. Construí-los ou usá-los não seria apenas uma questão de avanço tecnológico, mas um impeditivo da própria malha espaço-temporal do universo.
Logo, quando alguém afirma que extraterrestres poderiam visitar a Terra por meio de buracos de minhoca, sua afirmação não está apoiada em fatos científicos, mas em uma cadeia de especulações (primeiro assume-se que os buracos de minhoca existem; depois, que podem ser estabilizados; em seguida, que uma civilização domina essa tecnologia; e, finalmente, que a utiliza para chegar até nós). Ou seja, invocar wormholes para explicar visitas extraterrestres não resolve o problema das distâncias interestelares, apenas substitui um desafio físico conhecido por outro ainda mais especulativo, cuja existência jamais foi observada.
(g) Pensamento esperançoso versus realidade física
Mesmo com a realidade colidindo de frente, há fanáticos e amantes de ficção científica barata que afirmam sem titubear: não sabemos como criar, mas os ETs sabem! Ora, isso é apelo para ignorância (argumentum ad ignorantiam), uma argumentação do tipo: não sei, logo eles sabem. A dificuldade com esse tipo de argumentação é que a hipótese aventada torna-se imune a qualquer refutação, pois toda objeção é respondida com “os Ets são mais avançados e já resolveram isso”. Se a resposta para cada impossibilidade física é simplesmente “os ETs sabem fazer”, então estamos deixamos a ciência e entrando no território da imaginação e fantasia desenfreadas. Um Além da Imaginação ufológico.
Mas consideremos por um momento a validade desse argumento. Se extraterrestres já criaram algum tipo de warp drive funcional (ou wormhole transitável), por que ainda não tivemos nenhum sinal deles? Por que ainda não vieram nos visitar? Por que não detectamos deformações no espaço-tempo ao redor da Terra ou em nosso sistema solar? A total ausência de respostas concretas a essas questões sugere que um warp drive (ou wormhole) ainda não foi criado por nenhuma raça (se é que poderá ser criado).
Resumo da ópera espacial: propostas ousadas como motor de dobra ou buracos de minhoca, permanecem como especulação teórica, dependentes de condições físicas jamais observadas na natureza ou emuladas em laboratório. São pensamentos esperançosos que não resistem à colisão com a realidade física. Gostemos ou não, velocidade warp, como nos seriados de Star Trek, buracos de minhoca estáveis, como no filme Interestelar, ou stargates criados por raças antigas, mostram-se factíveis apenas na ficção. As colossais distâncias interestelares são, e continuarão sendo, uma barreira formidável (ao que tudo indica, intransponível) para visitas frequentes de civilizações extraterrestres.
(h) E se os ETs forem seres de outras dimensões?
Aqui saímos do campo puramente científico para a especulação fantasiosa, mas como o assunto resvala em alguns conceitos físicos, creio ser válido uma análise a esta altura da discussão.
Alguns ufólogos, cientes das enormes dificuldades físicas relacionadas às viagens interestelares, propuseram uma curiosa forma de contornar esses problemas: seres oriundos de outras dimensões, e não de planetas distantes, estariam visitando a Terra e tentando um contato com a humanidade. Esses seres coexistiriam em outras dimensões ou realidades paralelas à nossa e acessariam nosso mundo por algum mecanismo desconhecido.
Um dos pioneiros dessa narrativa é Jacques Vallée. Ele observou que muitos relatos de UFOs (termo usado à época) estariam mais próximos de fenômenos espirituais, psíquicos ou parafísicos do que de visitas de astronautas interestelares18 (hipótese em que iria ampliar para o conceito de visitantes extradimensionais19). Outro defensor conhecido é John Keel, que cunhou o termo ultraterrestes para inteligências não humanas oriundas de outras dimensões que interagiriam e influenciariam os seres humanos20.
Do ponto de vista estritamente científico, a narrativa de seres interdimensionais enfrenta dificuldades ainda maiores do que a hipótese de vida extraterrestre, a construção de motores de dobra e a existência de buracos de minhoca transitáveis. Ainda que a física moderna admita matematicamente a possibilidade de dimensões adicionais em algumas teorias (como versões da teoria das cordas), nenhuma dimensão extra foi detectada experimentalmente. Também não há nenhum mecanismo conhecido para transitar entre dimensões, nem qualquer observação de portais, passagens ou interfaces entre universos. Mesmo que epistemologicamente seja possível caracterizar matematicamente aspectos físicos de dimensões menores21, não existe teoria física que permita a entrada e saída controlada de seres de outra dimensão paralela para a nossa. Aliás, não há sequer uma prova física (ou argumento teológico) convincente que haja um multiverso22.
Curiosamente, a hipótese interdimensional é frequentemente vista por alguns como mais próxima de uma interpretação espiritual ou metafísica dos avistamentos do UAPs. Nesse caso, seres ultraterrestres ou interdimensionais, não seriam diferentes da definição de seres espirituais (hipótese analisada mais adiante). Para alguns cristãos, essa narrativa se mostra como uma estratégia elaborada para dar uma roupagem (pseudo) científica a uma realidade espiritual maligna.
Enfim, a hipótese interdimensional não resolve nenhum problema, só empilha novos sobre especulações sem base física. Nesse conto de fadas ficcional você é obrigado a aceitar (sem qualquer comprovação) a existência de outras dimensões habitadas, onde seres inteligentes vivem nelas, ao quais podem interagir com nosso universo, possuem alguma intenção oculta nessa interação e, por fim, são possuidores de tecnologia ou capacidades para fazê-lo. Para tanto, é necessário uma fé não só irracional, como proveniente de outro mundo. Se a hipótese extraterrestre exige uma tecnologia extremamente avançada, a hipótese interdimensional exige uma ultrafísica mega pró-blaster avançada, cujo escopo vai muito além da lógica e das leis conhecidas do universo.
(i) Em termos científicos, há ou não há extraterrestres?
Do ponto de vista estritamente científico, uma vez que não há qualquer evidência concreta, a resposta curta e honesta sobre a existência de vida fora da terra é: não sabemos. Se há, certamente não estão entre nós e nem próximos de nosso sistema estelar, pois não deram (ou não podem dar) nenhum sinal de vida. A conclusão, portanto, oscila entre uma probabilidade estatística ínfima e o profundo silêncio observacional.
Mas, se a ciência não pode dar respostas cabais, será que a teologia poderia? Há suporte bíblico para a possibilidade de extraterrestes, seja entre nós ou no cosmos? Vejamos então, as considerações da teologia cristã.
2. AS CONSIDERAÇÕES DA TEOLOGIA
(a) O silêncio das Escrituras sobre vida extraterrestre
Semelhante ao bordão de uma famosa agência de espionagem, a Bíblia não confirma nem nega explicitamente a existência de vida em outros planetas. Nenhuma passagem direta pode ser legitimamente usada para confirmar que o Senhor Deus criou vida em outros sistemas estelares. Da mesma forma, não há uma negação contundente que somente há vida na Terra. O foco principal das Escrituras é o relacionamento do Senhor Deus com a humanidade, e não com outras supostas raças criadas.
No entanto, quando a discussão envolve a possibilidade de vida além da Terra sob uma perspectiva teológica, é necessário fazer uma importante distinção. A Bíblia deixa claro a existência de outros seres inteligentes (Sl 148.2). Os seres espirituais, anjos e demônios, em suas diversas classes, tecnicamente são seres extraterrestres, posto que não são originários da Terra. Entretanto, não são extraterrestres em termos ufológicos, originários de outros sistemas estelares, e detentores de uma biologia e/ou tecnologia alienígena.
A natureza dos seres angelicais descritos na Bíblia é puramente espiritual (Hb 1:14). Não são seres baseados em matéria, portanto não possuem um corpo físico à semelhança dos humanos (Lc 24:37-39). Também é dito que não se reproduzem (Mt 22:30). Possuem uma natureza moral absoluta que não admite dilemas, sob pena de queda de seu estado original. Ou são totalmente santos (os anjos originais), servindo única e continuamente ao Senhor Deus (Mt 18: 10, 25:31; Jd 14; Is 6:2-3; Ap 4:8), ou são completamente decaídos e perversos, com uma natureza demoníaca (anjos que não guardaram seu estado original), e estão sob o domínio de Satanás (Jd 6; 2Pe 2:4; Mt 25:41).
Segundo as Escrituras, os anjos do Senhor são mensageiros de Deus (Lc 1:26ss), têm a capacidade de se manifestar aos seres humanos (Gn 18:1-2; Lc 1:11-19) e adoram continuamente a Deus (Is 6:1-3; Ap 4:8). Mas os demônios, por sua vez, se revoltaram contra seu Criador (2 Pe 2:4 e Jd 6), têm capacidade de enganar os seres humanos para propósitos malignos (Ap 12:9, 16:14; Jo 8:44) e podem se apresentar de forma diferente de sua natureza corrompida (2Co 11:14).
Essa distinção é fundamental em nossa discussão sobre ETs, pois enquanto os anjos fiéis são descritos como seres santos, obedientes e dedicados à glória de Deus, os demônios são descritos como rebeldes, enganadores e moralmente corrompidos. Como são seres espirituais, fundamentalmente distintos dos seres de carne e osso, confundi-los com seres biológicos alienígenas, como imaginados por alguns ufólogos de plantão, se constitui em um tremendo erro de categoria. É como perguntar qual o peso do número sete, confundindo a categoria física com a abstração numérica.
(b) Mas, e aquelas passagens bíblicas?
Mesmo com o flagrante silêncio das Escrituras sobre os ETs, há muita gente afirmando que esse silêncio não é uma negação absoluta e não se constitui em um impeditivo para a soberania de Deus. Deus poderia ter criado outras raças, o que o impediria? É uma argumentação legítima e, à primeira vista, se mostra um argumento sólido e teologicamente plausível, porém é preciso tem algum cuidado com esse raciocínio, pois trata-se de um tipo de falácia conhecida como apelo à possibilidade. Como assim?
É verdade que o Senhor Deus, em sua onipotência, pode criar vida em qualquer lugar do universo, uma vez que essa possibilidade está dentro do escopo de seus atributos. O problema é que este tipo de afirmação passa do “Deus pode criar vida em outros planetas” para “logo, ele provavelmente criou”. É um erro semelhante ao de argumentar que há vida em outros planetas só porque o universo é imenso. Quem assim argumenta está confundindo soberania com evidência e possibilidade metafísica (Deus pode fazer) com realidade ontológica (Deus de fato fez). É um erro de raciocínio ontológico, algo como se é possível para Deus, logo é real. Convém ressaltar que a onipotência divina não é um cheque em branco para a imaginação humana. A possibilidade de um arquiteto projetar mil casas diferentes, não significa necessariamente que ele construiu todas elas.
Aqui temos que ter clareza de mente para não confundir alhos com bugalhos: o Senhor Deus pode criar bilhões de civilizações extraterrestres, mas esse fato continua sendo uma afirmação sobre o poder de Deus e não sobre o que existe no universo. Criar outras civilizações extraterrestres não está além do seu poder. Poder não Lhe falta, mas será que Ele, de fato, criou? Nesse caso, a questão correta a ser feita é: o que de fato está revelado nas Escrituras sobre a possibilidade de vida em outros planetas? Há alguma passagem concreta?
Os ufólogos, defensores da linha a la “eram os deuses astronautas”, respondem positivamente à questão e apontam as seguintes passagens:
1. Os filhos de Deus e a estrelas da alva. Nessa narrativa, é dito que em Jó 1:6 e 38:7, os filhos de Deus, citados nas passagens, seriam representantes de outros planetas reunidos diante de Deus em uma assembleia cósmica localizada em um planeta mais evoluído. Naturalmente que esta é uma clara interpretação fantasiosa, e já adianto que não há nenhuma base exegética e hermenêutica para essa versão. A interpretação mais simples e condizente com o texto original é a reformada, que considera tratar-se de anjos. E por que é assim?
João Calvino defende que o texto não descreve uma reunião literal em um lugar físico do céu, mas utiliza uma linguagem acomodada à compreensão humana para demonstrar a soberania absoluta de Deus sobre todas as criaturas, inclusive Satanás23. Para o reformador, os "filhos de Deus" (bene ha'elohim) aparecem diante do Senhor, juntamente com Satanás, em uma cena claramente espiritual e judicial. Ou seja, não há elementos astronômicos ou interplanetários na passagem, nada que remotamente possa lembrar algo como uma Federação de Planetas (como na série Star Trek).
Outros autores de peso, como Turretin e Bavinck, também são unânimes ao afirmar que os filhos de Deus são os anjos e que a passagem descreve uma assembleia celestial, em que os anjos aparecem como servos e ministros de Deus, enquanto Satanás surge como acusador24-25. Eles consideram que a mesma expressão é utilizada em outras passagens do Antigo Testamento (como em Sl 89:6) para designar seres celestiais pertencentes à corte celestial (os anjos do Senhor). De modo semelhante, em Jó 38:7, as "estrelas da alva" aparecem em paralelismo poético com os "filhos de Deus", um hebraísmo em que duas expressões descrevem a mesma realidade sob imagens diferentes (o texto celebra a alegria dos seres celestiais diante da criação do mundo, não a presença de habitantes de outros planetas observando o nascimento da Terra).
Em resumo, a hipótese ufológica surge apenas quando conceitos modernos são projetados retrospectivamente sobre o texto bíblico, configurando um claro caso de anacronismo hermenêutico e eisegese. Em outras palavras, a interpretação da passagem como anjos ocorre porque o contexto forçosamente exige anjos. A ideia de extraterrestres não é extraída da passagem, ou inerente a ela, mas importada para ela. Logo, não há nenhuma indicação que estes seres sejam ETs.
2. Os gigantes em Gn 6: esta linha narrativa defende que os gigantes, citados em Gn 6:1-4 (nefilins, no original hebraico), seriam seres híbridos, resultantes do cruzamento de mulheres humanas (filhas dos homens) com extraterrestres (filhos de Deus). Essa prole seria uma raça superior em força, altura e renome que compartilhou os conhecimentos alienígenas com o restante da humanidade. O Senhor Deus, insatisfeito com o conhecimento dado aos homens, teria condenado esses mestiços, juntamente com a humanidade (corrompida por esse conhecimento avançado), à extinção por meio de um dilúvio.
É uma narrativa muito difundida em círculos ufológicos e de nova era (inclusive o tosco filme Noé, de 2014, com Russel Crowell, é baseado em elementos dessa linha narrativa). Mas há um grande erro de interpretação, pois dentro do contexto de Gênesis 6, o termo filhos de Deus (os que coabitaram com as filhas dos homens), admite duas interpretações plausíveis, mas nunca ETs.
A primeira, de linha reformada, defende que são os descendentes da linhagem piedosa de Sete e, as filhas dos homens, da descendência mundana de Caim, as quais não deveriam se misturar baseado no princípio do jugo desigual (2Co 6:14). O contexto de Gn 6 dá algum suporte a essa conclusão. Após a queda em Gn 3, a narrativa bíblica apresenta duas linhagens contrastantes. A linhagem de Caim, descrita em Gn 4, marcada pela crescente maldade, violência, poligamia e rebelião contra Deus, e a de Sete (em Gn 5), caracterizada pela piedade e fidelidade, incluindo homens como Enoque, que andou com Deus, e Noé, descrito como justo e íntegro. Há um claro contraste entre uma linhagem ímpia e outra piedosa, reforçando a interpretação de que os "filhos de Deus" pertencem à descendência fiel de Sete em oposição às gerações corrompidas de Caim. Uma linhagem obedecendo a Deus e a outra desobedecendo intencionalmente a Ele.
Após a descrição das duas linhagens, o capítulo 6 inicia com uma afirmação aglutinadora: “Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram.” (Gn 6:1-2 RA). Na linha reformada, a mistura entre ambas as linhagens resultou em uma multiplicação sem medidas do mal (Gn 6:5-6). Nas palavras de Sproul: “Gn 6 poderia estar falando simplesmente sobre o casamento entre aqueles que manifestam um padrão de obediência a Deus em suas vidas e aqueles que eram pagãos em sua orientação. Em outras palavras, esse texto provavelmente descreve casamentos entre crentes e não crentes”26.
Outra possibilidade é interpretação sociológica que considera o termo “filhos de Deus” como um título atribuído a reis e nobres, seja da linhagem de Caim, seja da de Sete. Essa interpretação fundamenta-se no fato que, em diversas culturas do Antigo Oriente próximo, reis era frequentemente chamados de "filhos dos deuses" ou considerados representantes especiais da divindade na Terra. Assim, a expressão "filhos de Deus" não precisaria indicar uma natureza angelical, mas uma posição de autoridade e poder27.
Essa linha defende que homens com grande autoridade e renome, reivindicaram para si prerrogativas divinas e exerceram seu poder de forma tirânica, esquecendo do seu Criador. Ao deixar de lado a obediência ao Senhor, tomavam para si muitas mulheres (a exemplo de Lameque) e, como déspotas, fizeram o que bem lhes aprouvesse. Seus decretos injustos e proceder ímpio, contaminaram a sociedade, do menor ao maior. Seus filhos (os nefilins, a elite dominante de uma sociedade em extremo depravada) seguiram o exemplo de seus pais. Em favor dessa interpretação, é notório que todo o contexto de Gn 4-6 é de uma humanidade em crescente rebelião contra Deus, com apropriações indevidas, abuso de poder e uma cultura impiedosa, atraindo o severo juízo divino contra a humanidade.
Além das duas interpretações acima, há uma dificuldade exegética e hermenêutica ao se considerar os nefilins como uma prole mestiça de alienígenas. Em nenhuma passagem bíblica há qualquer afirmação que os anjos tenham capacidade reprodutiva. O próprio Senhor Jesus deixou claro que os anjos não se casam (Mt 22:30; Mc 12:25). Nem o maior delírio científico tomaria como plausível o cruzamento entre espécies de naturezas divergentes. Além disso, há também uma implicação gravíssima ao interpretar o termo “filhos de Deus” como sendo extraterrestres: beira a blasfêmia! Como assim?
Filhos de Deus é um título precioso nas Escrituras, aplicado para os seguidores de Cristo (Mt 5:9; Rm 8:5; Gl 3:26) e, inclusive ao próprio Senhor Jesus (Mc 1:1; Lc 8:28; Mt 26:63-64; Jo 20:31; At 8:37; Rm 1:4; 2Co1:19; Hb 4:14; 1Jo 2:22, 5:20). Usá-lo com outras interpretações é impor uma mancha sobre a santidade do Senhor Jesus, de seus seguidores e de seus anjos. Em termos exegéticos a interpretação ufológica também incorre em outro agravante: no texto de Gênesis 6 a iniciativa de coabitar com as filhas dos homens é dos filhos de Deus. Se estes fossem anjos, o juízo de Deus seria sobre eles e não sobre a humanidade. O julgamento seria sobre o céu e não sobre a Terra. Fosse esse o caso, o Senhor seria acusado de injusto.
Enfim, a narrativa extraterrestre nessa passagem é completamente alheia ao contexto histórico e cultural, e só surge após o advento da ficção científica moderna, no século XX.
Vale citar aqui, o curioso o paralelismo desta narrativa com a Queda do homem no jardim do Éden. Os alienígenas (a serpente) trouxeram conhecimento superior (chamou atenção para as possibilidades de comer o fruto do conhecimento do bem e do mal), ensinaram a humanidade (convenceu a comer do fruto da árvore), a qual caiu no desagrado de Deus pelo conhecimento adquirido (os juízos de Deus contra a Terra e contra Adão e Eva), vindo juízo sobre o planeta (foram expulsos do paraíso). Interessante que nessa versão fabulosa há uma inversão de papeis, Deus é mau, invejoso e mesquinho, e os alienígenas só queriam o bem da humanidade. Dá o que pensar, não é mesmo?
Termino lembrando que boa parte dessa narrativa ficcional tem origem no livro apócrifo de Enoque, que não faz parte do cânon das Escrituras. Entretanto, mesmo esse livro não contém quaisquer referências sobre ETs ou exobiologia. Transformar essa breve referência apócrifa em evidência de cruzamentos entre humanos e extraterrestres exige atribuir ao texto uma agenda que ele claramente não possui. Não percamos mais tempo com isso.
3. O outro aprisco: outra passagem muito utilizada para a defesa bíblica de vida extraterrestre são as outras ovelhas citadas pelo Senhor Jesus em Jo 10:16: “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor”. Os amantes de ufologia afirmam que o termo ovelhas que não são deste aprisco, refere-se exclusivamente às civilizações em outros mundos. Ainda que pareça sedutora a narrativa em tempos de avistamentos de discos voadores, a interpretação teológica hermeneuticamente correta do texto é muito clara: se refere aos gentios, que estavam além do aprisco exclusivo dos judeus, e também aos futuros seguidores de Cristo. Não há o que discutir além.
4. Os mundos criados pela palavra de Deus, citados em Hb 11:3 (em traduções mais antigas como a ARC e KJV): essa linha sugere uma pluralidade de raças criadas por Deus em muitos mundos. Essa interpretação é uma das mais fracas, pois não possui qualquer base exegética. O termo grego utilizado para mundo nessa passagem é aionas (que significa eras, séculos, idades), indicando uma visão completa da ordem criada. O texto está se referindo à totalidade do universo visível, que foi trazido à existência pela Palavra de Deus. Traduções mais novas como ARA, NVI, NAA, GNV, RSV, até mesmo a NTLH, traduzem o termo como universo (ou o singular mundo), de forma mais coerente com os manuscritos em grego. Se o autor quisesse se referir a planetas, mundos físicos ou civilizações, o termo mais comum a ser utilizado seria kosmos, mas não é esse o caso. Utilizar Hb 11:3 como prova de civilizações extraterrestres equivale a atribuir ao texto uma informação que ele simplesmente não pretende comunicar.
5. As rodas de rodas cheio de olhos na visão de Ez 1:15-21: nessa linha, se defende que o profeta Ezequiel testemunhou uma nave espacial com tecnologia avançada, pilotada por extraterrestres. Essa versão com contornos de ficção científica foi popularizada por textos e vídeos de ufólogos a partir dos escritos fantasiosos de Erich von Däniken28. Uma completa bobagem.
Essa linha interpretativa deixa de lado todo o contexto histórico, o estilo literário e o simbolismo do livro de Ezequiel. Não há qualquer indicação no texto de outros planetas, visitantes interestelares, tecnologia espacial avançada ou seres oriundos de civilizações alienígenas. O profeta Ezequiel é claro quanto ao que viu ser uma manifestação da glória do Senhor: "Esta era a aparência da semelhança da glória do SENHOR" (Ez 1:28). Ir além disso é no mínimo anacronismo hermenêutico, para não dizer má fé ou paranoia.
Há outras passagens utilizadas para argumentos ainda mais canhestros, como o que alega que os ETs estão vivendo entre nós desde a antiguidade (baseado em Hb 13:2), ou que Jesus é um extraterrestre (nesse delírio, no ato de seu nascimento terrestre, naves espaciais estavam ao redor, confundidas pelos pastores como anjos) e seus milagres são apenas aplicação de tecnologia avançada disfarçada de elementos comuns (o lodo em Jo 9:6 seria uma infusão de células tronco alienígenas, capaz de restaurar as células do olho do cego). Em vista a teorias tão esdruxulas e fantasiosas, a impressão que fica é que, para alguns, tendo que optar entre um querubim e um piloto extraterrestre em uma astronave, sempre escolherão a opção hollywoodiana com mais efeitos especiais.
(c) Se há outras raças além da humana, isso traz algum prejuízo para a cosmovisão cristã?
Admitamos, para fim de argumentação, a existência de outras raças inteligentes espalhadas no universo, criadas por Deus. Embora esse cenário possa refletir algo da multiforme sabedoria, criatividade e poder do Senhor Deus, também suscita algumas questões teológicas acerca da santidade divina, da queda do homem e da redenção obtida na cruz por Cristo Jesus. Explico.
Se há muitas raças avançadas, temos que pressupor que são constituídas de seres morais. Nesse caso é plausível supor a partir do único exemplo conhecido (no caso, a raça humana), que em todos eles, ou em sua maioria, a realidade do pecado tenha se instaurado. Nesse quadro, o problema da realidade do mal na presença de um Deus Santo seria em muito ampliado. Um Deus Santo, que não pode contemplar o mal, criaria para si um universo de trevas morais de dimensões inimagináveis. A perplexidade de Habacuque (Hc 1:13) assumiria a dimensão inusitada de uma queixa cósmica que não admite resposta:
“Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele?” (Hc 1:13 RA)
Outra dificuldade na admissão de existência de outras raças estelares relaciona-se à singularidade do sacrifício de Cristo. As Escrituras apresentam a encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus como eventos únicos e centrais na história da redenção (Hb 9:26-28; 10:10-14). Se admitirmos a existência de inúmeras raças inteligentes espalhadas pelo universo, surgirá uma questão inevitável: essas raças permaneceram sem pecado ou também experimentaram uma queda moral semelhante à humana? Se permaneceram sem pecado, então a humanidade ocuparia uma posição singular no drama cósmico da redenção. Contudo, se também caíram, seria necessário explicar como se daria a redenção. Por que essa necessidade?
A soteriologia bíblica é taxativa: a culpa pelo pecado exige expiação, cujo preço nenhum mortal pode pagar, e a única reconciliação possível requer uma intervenção redentora do Senhor Deus. Uma vez que, em um único planeta conhecido, a realidade do mal e a presença do pecado tornaram necessário o derramamento do precioso sangue do Filho de Deus para a redenção (1Pe 1:19-20), por força de argumentação lógica, redimir muitos outros povos implicaria um preço semelhante (ou maior). Nesse quadro, seria preciso admitir múltiplas encarnações, múltiplos atos expiatórios ou algum outro mecanismo redentivo superior ao derramamento de sangue do Cordeiro, não revelado nas Escrituras. Imaginar que o ultraje infinito sofrido pelo Verbo Eterno na cruz, para remir uma única raça, seja repetido por uma infinidade de outras raças, reduz o sacrifício a um mero processo, destituído da glória singular redentiva.
No entanto, ainda seria possível argumentar “E por que não? Por que Ele não poderia ter se sacrificado por cada raça caída? Ele é Deus!”. Embora seja um raciocínio razoável, entra em confronto direto com a revelação das Escrituras, quando afirma que “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos” (1Pe 3:18 RA) e que Ele “entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção” (Hb 9:12 RA). Portanto, o sacrifício de Jesus foi um evento cósmico único, e não um processo fabril, passível de repetição. A própria encarnação do Verbo é um evento singular, bem como a redenção obtida na cruz. A criação geme e suporta angústias pelo pecado que foi perpetrado neste mundo (Rm 8:19-23), não em outros mundos. A singularidade da redenção eterna aponta fortemente para uma única raça. Por esse aspecto, o argumento bíblico da existência de outras raças extraterrestres é em muito enfraquecido (para não dizer inconsistente).
Por fim, uma última consideração teológica: se de fato existirem outras raças inteligentes além da humanidade, como compreender, à luz das Escrituras, a possibilidade de interação e comunicação entre elas? A única resposta possível: é impossível qualquer interação. Por que defendo esse argumento? Ora, dada a singularidade do sacrifício de Cristo, como exposto acima, por força de argumentação lógica e teológica, essas raças jamais caíram à semelhança da raça humana, e estão ainda em estado de graça, pureza e inocência. Como consequência direta não poderiam se comunicar conosco, ou mesmo nos visitar, devido à natureza extremamente maligna e sedutora do pecado. No máximo estariam no vendo de muito longe, aguardando a redenção dos filhos de Deus. Ou seja, para todos os efeitos terrenos é como se não existissem. Mesmo que existissem não se dariam a conhecer e nem entrariam em contato. E adianto para os que acham essa hipótese atraente, que não há qualquer base bíblica que permita fundamentar essa possibilidade. Ela fica circunscrita à esfera da ficção científica cristã29 ou de ensinamentos espúrios de algumas seitas.
(d) Em termos teológicos, então a Escritura não defende vida extraterrestre?
À luz das considerações bíblicas, a interpretação mais consistente e coerente com os dados examinados conduz inevitavelmente a uma resposta negativa. Todavia, é importante reconhecer que as Escrituras não oferecem uma declaração explícita que permita uma conclusão definitiva, seja para afirmar, seja para negar categoricamente a existência de vida inteligente além da Terra. Por que é assim? Porque a Palavra de Deus não se preocupa em dar respostas ou respaldo a curiosidades científicas ou narrativas de ficção científica, mas se ocupa da revelação de Deus, da queda humana e da vitória de Cristo Jesus.
Em termos teológicos, mesmo que a ciência indique, afirme que haja algum indício de vida biológica em outros planetas, esse fato não mudará a realidade do pecado no coração humano, a salvação obtida por Jesus na cruz e a certeza de um juízo vindouro. A mensagem do Evangelho para todos, até que Ele venha, ainda está de pé com ou sem ETs: arrependam-se, porque está próximo Reino dos céus (Mt 4:17).
3. AFINAL, O QUE SÃO OS AVISTAMENTOS DE UAPs REGISTRADOS?
Chegamos, enfim, à questão central que tem despertado crescente interesse e inquietação, especialmente após a recente divulgação de documentos e relatórios relacionados aos UAPs pelo governo dos Estados Unidos. Contudo, a partir desse ponto, devido aos muitos relatos e especulações sobre avistamentos, entramos em terreno movediço e necessitamos de máxima cautela e discernimento. Quatro afirmações preliminares precisam ser estabelecidas.
A primeira é que não se pode negar que há registros de avistamentos de fenômenos anômalos e muitos dos quais não podem ser explicados de forma convencional. Segundo, também não se pode dizer levianamente que sejam tão somente fraudes, resultados de alucinações ou mesmo visita de ETs. Terceiro, cada indivíduo é livre para acredita naquilo que melhor lhe convier e tirar suas próprias conclusões. Por fim, o posicionamento do cristão quanto aos UAPs, naquilo que ele julga ser crível, deve estar fundamentado com os princípios da Palavra de Deus.
Esclarecido esses pontos, podemos perguntar: para o cristão, em que se constitui esses avistamentos?
(a) Possíveis causas que podem explicar os avistamentos
Já discutimos que em termos científicos a possibilidade de seres extraterrestres visitar a Terra é praticamente nula. Também e em termos teológicos chegamos a conclusões semelhantes. Sendo assim, que explicação razoável pode ser dada a esses fenômenos? Há ao menos cinco possibilidades, quatro convencionais, de cunho natural, e uma quinta sobrenatural.
Primeiro, os avistamentos podem ser resultado de fraude deliberada, envolvendo, envolvendo imagens, vídeos, testemunhos ou evidências forjadas. É uma explicação plausível em vários cenários de avistamentos, especialmente em uma era de conteúdos virais em redes sociais visando notoriedade, engajamento de seguidores e até retorno financeiro. Há ainda um agravante: o avanço recente das ferramentas de inteligência artificial (IAs), tornou a verificação da veracidade dos relatos ainda mais complexo.
Atualmente, sistemas de geração de imagens e vídeos são capazes de produzir registros extremamente realistas de objetos voadores, luzes anômalas e supostas naves extraterrestres. Alguns desses vídeos mostram-se indistinguíveis de gravações autênticas para o observador comum. Desde a liberação dos arquivos de UAPs, aumentou exponencialmente a quantidade de vídeos de avistamento nas redes sociais e em podcasts de ufólogos. Embora a hipótese de fraude não explique todos os relatos (especialmente aqueles envolvendo múltiplas testemunhas, registros instrumentais ou observadores treinados), é a que apresenta maior plausibilidade.
Segundo, uma fração dos relatos são resultados de alucinações decorrentes de algum quadro de psicopatia (transtorno delirante, esquizofrenia, delírio compartilhado, etc), erros de percepção, paranoia, estados alterados de percepção ou mesmo sugestão induzida por substâncias ou grupos. Essa possibilidade pode explicar muitos depoimentos incoerentes de abduções (como o de ETs realizando procedimentos cirúrgicos estranhamente fetichistas), visões absurdas (como a de vacas sendo puxadas por feixes de luz) e correlatos.
Terceiro, programas militares secretos de armamentos com uso de tecnologia ainda desconhecida do público (e até de setores civis do próprio governo). Essa hipótese é considerada uma das explicações mais plausíveis para uma boa parcela dos relatos quando há avistamento na presença de múltiplas testemunhas, ou com registros instrumentais em relatórios oficiais ou por observadores treinados. Há relatos históricos que contribuem para dar peso a essa possibilidade. O exemplo mais emblemático foram alguns avistamentos relatados durante a guerra fria, onde aeronaves como o Lockheed U-2 e o Lockheed SR-71 Blackbird foram confundidos com objetos voadores não identificados, tanto por pessoas comuns como por instrumentos. Essas aeronaves estavam além da capacidade de detecção técnica conhecida da época30. Entretanto, essa hipótese tem limitações e não explica satisfatoriamente todos os casos, pois alguns relatos mais antigos excedem até a tecnologia atual, mesmo considerando a existência de programa militares secretos.
Uma quarta hipótese é que boa parte dos avistamentos atuais são devidos a drones (ou correlatos convencionais como balões e satélites), especialmente depois da popularização e uso por militares e civis. Uma vez que os drones podem realizar manobras que muitos observadores não associam imediatamente a aeronaves convencionais, especialmente à noite e com as luzes ligadas, é grande a possibilidade de confundi-los com UAPs31. No entanto, esta hipótese também possui limitações, à semelhança da anterior, posto que muitos relatos históricos ocorreram décadas antes da existência dessa tecnologia.
Por fim, esgotado os casos que resistem às explicações convencionais anteriores, resta a averiguação de uma causa sobrenatural. À luz da cosmovisão bíblica, não se pode descartar que determinados fenômenos envolvam uma dimensão espiritual destinada a produzir confusão, fascínio ou engano entre os seres humanos. Se tal possibilidade for considerada factível, então alguns relatos poderiam não representar visitantes de outros mundos, mas um engodo sobrenatural. Essa hipótese exige uma explicação mais detalhada e cuidadosa.
(b) A hipótese de uma causa espiritual
Se não estamos diante de visitantes de outros mundos (posto que se mostra cientificamente problemática e teologicamente improvável), e se as explicações convencionais falham em dar conta de todos os casos de avistamentos, então a hipótese sobrenatural não pode ser solenemente descartada. Assim, a partir desse ponto, a pergunta relevante deixa de ser se os UAPs são verdadeiros ou não, e passa a ser: qual é a sua natureza última? Haveria nesses avistamentos uma dimensão espiritual?
Consideremos as únicas duas alternativas bíblicas possíveis.
b1. Poderiam ser aparições de anjos do Senhor?
Já vimos acima que a Bíblia é taxativa ao afirmar que seres espirituais (e aqui estou falando de anjos, caídos ou não), podem se manifestar de diversas formas. Há vários relatos no antigo testamento e no novo testamento dessas manifestações (Gn 3:1, 18:1-2; Lc 1:11-19, entre várias outras).
Os anjos de Deus, quando manifestados, são “enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hb 1:14 RA) e não deixam margem para engano aos que os veem. Normalmente essas aparições ou teofanias são acompanhada de grande temor por quem foi visitado (Ez 1:28; Dn 8:18, 10:8-9; Hc 3:16;Mt 17:1-6; Ap 1:17). Não há nenhum caso registrado na Bíblia em que a aparição de um anjo de Deus, enviado para uma determinada pessoa, tenha sido visto acidentalmente por outras a ponto de gerar uma interpretação canhestra do fenômeno ou reputá-lo como não sendo originário de Deus. Por exemplo, Paulo, na estrada de damasco tem um encontro com o próprio Cristo ressurreto em luz fulgurante. Os que o acompanhavam, até perceberam a luz e ouviram uma voz (mas não a compreenderam), contudo não viram o que o apóstolo viu (At 9:3-7, 22:9). Algo semelhante ocorreu com Daniel e seus companheiros:
“Só eu, Daniel, tive aquela visão; os homens que estavam comigo nada viram; não obstante, caiu sobre eles grande temor, e fugiram e se esconderam.” (Dn 10:7 RA).
Por fim temos o conhecido episódio de Elizeu, que recebera de Deus o dom de ver a realidade espiritual sobre a realidade material, entretanto seu servo que o acompanhava sequer tinha ideia do que o rodeava. Como está escrito:
“Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus e saído, eis que tropas, cavalos e carros haviam cercado a cidade; então, o seu moço lhe disse: Ai! Meu senhor! Que faremos? Ele respondeu: Não temas, porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles. Orou Eliseu e disse: SENHOR, peço-te que lhe abras os olhos para que veja. O SENHOR abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu.” (2 Rs 6:15-17 RA)
Mesmo quando anjos enviados pelo Senhor Deus se manifestam visivelmente a muitas pessoas, as Escrituras não os descrevem sendo percebidos como seres estranhos, extraterrestres ou pertencentes a uma realidade exótica. Pelo contrário, sua aparência frequentemente é tão comum que são confundidos com seres humanos. Um exemplo encontra-se em Gn 19:1-5, quando os anjos que visitaram Sodoma e foram recebidos por Ló como viajantes comuns, vindos da parte de Deus. Até os homens da cidade os consideraram suficientemente humanos, a ponto de desejarem praticar violência sexual contra eles. O texto não sugere espanto que seria o normal diante de criaturas incomuns, tampouco descreve qualquer reação compatível com um encontro com seres de outro mundo. Ao contrário, a passagem reforça a ideia de que os anjos, quando enviados por Deus, normalmente se apresentam de maneira compatível com a experiência humana ordinária, e não promovem confusão. Em todos os casos, a percepção de uma realidade espiritual depende soberanamente do Senhor Deus conceder a graça de tal avistamento a pessoas específicas. Na Bíblia, quando ocorre, não há margens para dúvidas: foi o Senhor revelando sua vontade aos seus servos, acompanhado de sentimento de santo temor.
Vale ressaltar que anjos do Senhor não admitem ser confundidos com qualquer coisa que compita com a glória a ser dada unicamente a Deus (Ap 19:10, 22:8-9). Isso contrasta fortemente com as descrições atuais de supostos visitantes extraterrestres (frequentemente associados a aparências bizarras, tecnologias exóticas e manifestações espetaculares), os quais são algumas vezes identificados como anjos ou seres espirituais cósmicos elevados. Mesmo que um avistamento de UAP possua características compatíveis com descrições angelicais, seria precipitado concluir que se trata de um anjo cósmico (ou coisa semelhante), uma vez que o Senhor não é Deus de confusão (1Co 14:32-33) e não envia seus anjos com esse propósito.
Mas se os avistamentos não podem ser imputados a anjos do Senhor, poderiam ser manifestações espirituais de outra natureza? Nesse caso temos que considerar os anjos caídos, ou demônios.
b2. Poderiam ser manifestações de anjos caídos?
De acordo com a Palavra de Deus, os demônios são seres espirituais inteligentes e pessoais, com algum nível de poder maior que os homens. Ainda que apresentem uma natureza espiritual não circunscrita à matéria, são criaturas limitadas, moralmente decaídas, sujeitas à autoridade de Deus e destinadas ao juízo final.
Em relação à capacidade de manifestação desses seres, as Escrituras afirmam que “o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” (2Co 11:14), indicando sua habilidade de assumir aparências enganosas, ocultando sua verdadeira natureza sob aparências sedutoras e convincentes. Quanto à sua natureza enganadora, se há algo muito claro nas Escrituras sobre essas criaturas é que são fundamentalmente mentirosas (Jo 8:44), capazes de enganar os seres humanos (1Tm 4:1; Ap 12:29), promover falsas doutrinas (Gl 1:8; 1Tm 4:1), inclusive influenciar pensamentos e ações humanas (Jo 13:2; At 5:3) e, em casos mais graves, capazes de possuir pessoas (Lc 13:11-16; Mc 9:17-27; At 16:16). Há ainda dois detalhes adicionais: são inimigos da humanidade, desejando sua destruição (Jo 10:10) e capazes de produzir sinais e prodígios enganosos (2 Ts 2:9-12).
Em vista dessas características, temos nos demônios uma possibilidade que, ao menos em princípio, pode oferecer uma explicação para determinados avistamentos que ainda permanecem sem uma causa natural satisfatória. Essa hipótese merece ao menos uma análise criteriosa.
Se os demônios são seres fundamentalmente mentirosos e inteligentes, mestres da dissimulação e da falsidade, capazes de enganar, influenciar e até produzir sinais extraordinários, não é inconcebível que possam usar de narrativas sobre UAPs para promover confusão espiritual. Com que intuito? Dificilmente seria apenas produzir fascínio ou curiosidade (2Co 2:11). À luz das Escrituras, a finalidade mais coerente seria promover uma narrativa alternativa à revelação bíblica, deslocando a esperança do Senhor Deus para supostos salvadores cósmicos (Gl 1:8-9). Aliás, não é coincidência que parte significativa da literatura ufológica contemporânea apresente os extraterrestres como seres bons, moralmente superiores, portadores de conhecimento oculto, guias de uma evolução espiritual da humanidade ou futuros redentores capazes de conduzir o planeta a uma nova era de paz e consciência (1Tm 4:1).
Sob uma perspectiva bíblica, essas promessas alienígenas ecoam um padrão antigo, formulado pela serpente no Éden: oferecer salvação sem arrependimento, conhecimento divino sem submissão a Deus e uma esperança fundamentada na fraude (Gn 3:1-4). Nesse cenário, os "irmãos das estrelas" ocupariam simbolicamente o lugar que as Escrituras reservam exclusivamente ao Senhor Jesus, funcionando como uma contranarrativa espiritual destinada a substituir a redenção bíblica por uma redenção cósmica. Se a hipótese de anjos caídos estiver correta, o objetivo final não seria convencer as pessoas da existência de vida extraterrestre, mas levá-las a transferir sua confiança da revelação de Deus para uma falsa esperança apresentada sob uma roupagem tecnologicamente avançada e culturalmente atraente. Um engodo em todos os sentidos (2Co 11:13-15).
Aqui não podemos nos deixar enredar: a estratégia mais eficaz do engano demoníaco não é negar a necessidade de salvação, mas oferecer um salvador diferente.
Há algum cenário em que esse engano poderia ser engendrado com mais eficácia, sem despertar maiores suspeitas por parte da humanidade? A resposta é positiva e as Escrituras tem algo a falar sobre isso.
(c) A operação do erro nos últimos dias
O Senhor Jesus alertou que nos últimos dias haverão coisas espantosas e grandes sinais no céu (ainda que não tenha especificado a natureza desses sinais em Lc 21:11), e uma onda sobrenatural de engano que varrerá o mundo. Ele descreve esses dias como terríveis “porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos.” (Mt 24:24 RA). O quadro é de engano, com sinais incomuns que causarão espanto e perplexidade na humanidade, visando desviar e distrair a humanidade do que realmente importa. Os relatos atuais sobre UAPs estariam dentro desse quadro maior de engano. Um exercício mental aqui talvez traga alguma clareza a esse ponto.
O que aconteceria se, em algum momento próximo futuro, for declarado por alguma agência governamental que os UAPs são realmente seres extraterrestres? Passada a fase de espanto e perplexidade, toda a atenção da humanidade se voltaria para questões sobre os ETs: quem são, o que pensam, creem em algum Deus, foram os responsáveis pela evolução, pelas pirâmides, pelos avistamentos, irão nos ajudar a evoluir? São nossos salvadores? E assim por diante. Tal cenário constituiria uma estratégia de distração sofisticadíssima para evitar a verdadeira questão que subjaz ao destino da humanidade: estou em paz com o Senhor Deus, que se revelou em Cristo Jesus?32. Mas será que os seres humanos se deixariam enganar tão facilmente?
A Bíblia afirma, taxativamente, que sim. Não só se deixarão enganar, como acolherão a mentira de braços abertos. O apóstolo Paulo, aprofunda o quadro do engano prevalecente nos últimos dias ao identificar os motivos. Ele denomina esse movimento de operação do erro:
“Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos. É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça.” (2 Ts 2:9-12)
Será um período em que a humanidade, que sempre rejeitou a Cristo, de forma unânime, se porá contra os cristãos fieis e piedosos. Ao mesmo tempo, os ímpios e descrentes serão incentivados e firmados em uma postura ativamente contra Deus, por uma onda de mentiras, sinais, prodígios, escândalos e enganos que glorificarão a injustiça de seus corações, fazendo-os defender e crer nas narrativas mais absurdas. Essa onda é a operação do erro, que Paulo descreve. Mas, qual é a natureza da operação do erro?
O termo pode ser traduzido como poder do erro, obra do erro ou poder que seduz ao erro. A palavra operação em grego é energeia, que pode ser traduzida como energia, eficiência ou poder operante, e no NT é usado apenas para um poder operado por Deus ou pelo diabo, mas nunca o homem. E o termo erro vem da palavra plane que indica erro, desvio, o que induz ao erro, fraude. A NVI traduz a expressão como poder sedutor, no sentido que este poder opera de forma eficiente para seduzir as pessoas ao engano e à mentira. Outras versões utilizam a expressões como forte engano, forte ilusão, atuação do erro, poder do erro, trabalho da ilusão, influência enganosa, etc. Em termos paulinos é uma influência (seja em forma de uma moda, uma onda, um paradigma, uma ideologia, um feito tecnológico, uma revelação oficial) de origem sobrenatural que o Senhor enviará e permitirá que atue sobre todos aqueles que rejeitaram a verdade.
Essa influência, que será midiática e organizada, fará com que pessoas de todas as classes, posição, cultura e lugar, deem crédito às ideias mentirosas, notícias enganosas, ideologias corrompidas, testemunhos falsos, vídeos forjados, valores imundos, sentimentos vazios, teorias conspiratórias e a todo tipo de relato fantasioso (1Tm 4:1). Trocarão a solidez da Verdade pelo fascínio das fábulas e especulações, recebendo narrativas sedutoras como se fossem fatos incontestáveis. Nesse tempo de confusão, as pessoas acreditarão, defenderão e se organizarão em torno de narrativas extraordinárias e visões fantasiosas, e se levantarão contra os que não aceitarem este ponto de vista demoníaco. Relatos de aliens entre nós, vídeos de avistamentos, um novo evangelho cósmico, espíritos elevados, paraísos escondidos nas profundezas da terra ou mar, etc, certamente se encaixam nesse cenário de engano.
Por que as pessoas darão ouvidos a esse poder sedutor? Elas o farão primeiro porque Deus assim o determinou, posto que por sua impiedade preferem acreditar no erro do que na Palavra de Deus. O Senhor Deus, em sua soberania, é quem envia a esta geração um “poder sedutor” para que sejam enganados, uma vez que “não creram na verdade, mas tiveram prazer na injustiça” (2Ts 2:12). Estas pessoas não são inocentes, o Senhor Deus não está enviando a elas o poder sedutor arbitrariamente. Elas próprias, deliberadamente, rejeitaram a verdade e acolheram a mentira e a injustiça.
Talvez a essa altura alguém esteja pensando: mas elas estão crendo no erro porque não conheceram a Verdade. Não tiveram oportunidade de ouvir toda a verdade das Escrituras e ainda foram coagidas por Deus a acreditar em uma rede de mentiras difundidas pela mídia. Parece um pensamento piedoso, não se deixe perturbar por esse sofisma. Por mais sedutor que pareça, este pensamento não resiste a uma análise cuidadosa à luz da lógica e das Escrituras. O texto de 2 Ts 2:9-12 não se refere a pessoas inocentes ou moralmente neutras que não sabiam reconhecer o certo do errado. Refere-se àqueles que, tendo sido confrontados com a verdade, recusaram-se a acolhê-la, preferindo o engano e encontrando prazer naquilo que é injusto diante de Deus. Como rejeitaram a benção vinda do Senhor, a maldição as alcançará, como está escrito: “Amou a maldição; ela o apanhe; não quis a bênção; aparte-se dele.” (Sl 109:17)
Tenhamos clareza nesse ponto, esse poder sedutor arrebatará a humanidade de forma desenfreada para aquilo que sempre amaram: um sistema injusto, enganoso, baseado em notícias falsas, narrativas sensacionalistas e valores fúteis. Nas palavras de Albert Barnes: “Deus muitas vezes coloca as pessoas em circunstâncias para que desenvolvam sua própria natureza, e não se pode dizer que é errado esse agir de Deus. Se as pessoas não amam a verdade e não desejam ser salvas, não é incorreto que lhes seja permitido por Deus manifestar isso”33. A questão que sobra é: já estamos vivendo esse tempo? O futuro já chegou? A forte sedução da mentira já opera em nosso meio? Os avistamentos fazem parte desse engano?
Do ponto de vista pessoal, considero que a sedução do engano em escala global já dá fortes sinais de estar operando. Por que eu afirmo isso? Porque vivemos um tempo em que mentiras grosseiras e narrativas enganosas estão sendo aceitas como verdade, sem qualquer filtro racional. Nunca vivemos um tempo como este, em que paixões infames são defendidas desavergonhadamente e recebidas com tanta alegria por tantos. Devido a mídia onipresente em uma grande variedade de telas e formatos, a humanidade tem se deixado levar por fake news, narrativas irreais e conspirações paranoicas, recebidas sem qualquer filtro lógico. Sim, a humanidade nunca experimentou um momento em que tantas pessoas apresentam uma mente tão embotada, incapaz de perceber a maldade e a injustiças de suas falas, atitudes e paixões.
Quer exemplos? De forma bem concreta listo alguns desses enganos aceitos de boa mente por grande parcela da população mundial: defesa de novos formatos de família e relacionamentos afetivos; rejeição aberta do casamento judaico-cristão; adultos se identificando como animais, dragões, ETs, crianças, etc; supervalorização dos pets acima de filhos; bonecas sendo tratadas como bebês reais; sexo com robôs; desprezo da vida no útero; glamourização do sexo livre; vida vazia via um clique; igrejas comandadas por IAs; relacionamentos puramente digitais; teologias alternativas travestidas de ficção científica; salvadores espaciais vivendo entre nós. Sim, estamos testemunhando a olhos vistos uma onda inédita de engano e fraude, a partir de uma completa inversão de valores, onde o mal é chamado de bem, o certo é visto como ultrapassado e ofensivo e o errado é exaltado e aplaudido. Se não procurarmos com afinco a verdade de Deus, se não amarmos sua Palavra, em seu lugar encontraremos a mentira, e seremos facilmente seduzidos pelo engano. Nos deixaremos levar pela narrativa que UAPs são seres bonzinhos do espaço que vieram nos ajudar a evoluir, que não existe um Deus e que nossa esperança está nas estrelas.
Resumindo, todo e qualquer relato de UAPs que não possa ser explicada por causas naturais, terá em anjos caídos uma possibilidade que não deve ser descartada de antemão. À luz da cosmovisão bíblica, a atuação de seres espirituais caídos constitui uma hipótese plausível que merece ser considerada seriamente. Em tempos de engano espiritual, a distância entre a narrativa de um UAP e uma teologia alienígena costuma ser exatamente do tamanho do desejo dos demônios.
4. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que dizer à vista dessas coisas? Levando em conta a ínfima probabilidade científica de vida extraterrestre visitando a Terra, as dificuldades teológicas associadas à existência de raças extraterrestres, a natureza enganadora dos demônios e a possibilidade de sinais espirituais extraordinários nos últimos tempos, teço algumas considerações:
1. O discernimento deve prevalecer sobre o fascínio. A curiosidade humana pelo desconhecido é legítima, mas o cristão é chamado a exercer discernimento espiritual (1Ts 5:21). Nem tudo o que o que é dito e mostrado nas redes sociais merece crédito ou nossa atenção, especialmente em uma época de fraudes com vídeos feitos por meio de IAs.
2. A hipótese espiritual não prova automaticamente que UAPs sejam demônios. A Palavra de Deus admite a existência e atuação de seres espirituais caídos, mas não fornece base para afirmar categoricamente que todo UAP possui origem demoníaca (1 Jo 4:1). É uma possibilidade que não pode ser descartada, porém deve haver cautela em analisar cada relato ou vídeo de avistamento sob essa ótica.
3. A aparência extraordinária de um ET não garante sua origem cósmica. As Escrituras alertam que seres espirituais podem assumir aparências enganosas e apresentar sinais impressionantes. Portanto, mesmo no caso extraordinário de um contato de 1º grau com supostos ETs, não implica, necessariamente, que são seres bondosos de outros planetas vindo nos salvar. O engano frequentemente se apresenta em uma roupagem atraente.
4. O perigo em considerar apenas os extremos. O cristão deve resistir tanto ao ceticismo absoluto quanto à credulidade ingênua. Muitos relatos podem ser explicados por causas convencionais, mas nem todos, e aqui cabe a observação de C.S. Lewis sobre os demônios: “Há dois erros semelhantes e oposto nos quais nossa raça costuma cair em se tratando de demônios. O primeiro é não acreditar na sua existência. O segundo é crer e sentir um interesse excessivo e doentio por eles. Os diabos agradam-se de ambos os erros e saúdam como o mesmo deleite tanto um materialista quanto um feiticeiro.”34 (ou um espiritualista ufólogo, nesses tempos confusos em que vivemos). Tenhamos cautela ao considerar um desses extremos.
5. A esperança cristã não depende da existência ou inexistência de extraterrestres. O foco é, e continua sendo, Cristo Jesus. Ele é o resplendor da glória e a expressão exata do Ser de Deus (Hb 1:3). Nenhuma realidade que, porventura venha sobre nós sob o pretexto de uma mensagem superior de um novo cristo cósmico, poderá tirá-lO do seu trono de glória (Cl 3:1). Ele reina!
6. Estejamos atentos, pois mensagem é mais importante que o fenômeno. E aqui talvez seja a consideração mais importante. Biblicamente, a principal questão não é a existência de ETs entre nós, mas a mensagem que acompanha essa narrativa. Se supostos ETs vierem com o intuito de salvar a humanidade, ensinar uma nova espiritualidade e substituir a centralidade de Cristo, o problema não será a origem interestelar ou sua aparência, mas a mensagem que trazem. Qualquer manifestação ou narrativa que diminua a centralidade de Cristo, relativize as Escrituras ou proponha uma salvação alternativa deve ser examinada com discernimento e, pública e prontamente, rejeitada (Gl 1:8).
EPÍLOGO
Chega! A hora se aproxima. O Rei está voltando, o mundo está sendo mudado, virado ao avesso, e o Inimigo busca desesperadamente trazer o máximo de prejuízo a este mundo. Contudo, a longa noite vai ter fim e, até a chegada da manhã, ainda teremos enganos, apostasias, anticristos, trevas, relatos de ETs e UAPs. Lembremos do que o Espírito Santo nos avisou em sua santa Palavra:
“E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no princípio cremos. Vai alta a noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.” (Rm 13:11-12)
“Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se. E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras.” (Ap 22:11-12)
Nossa esperança não está nas estrelas, posto que um dia cairão do firmamento, mas unicamente nAquele que as criou. Maranata, vem Senhor Jesus!
REFERÊNCIAS
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Dr. Kelson Mota T. Oliveira, é, desde 1992, professor de carreira da Universidade Federal do Amazonas, na área de Físico-Química. É mestre e doutor em Físico-Química pela Universidade de São Paulo (IQSC-USP), na área de Química Teórica/Mecânica Quântica Molecular. No campo interdisciplinar, foi professor convidado no Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul, ministrando as disciplinas Apologética e Tópicos Especiais de Fé e Ciência, nos anos de 2008 a 2010. É escritor (com dois livros publicados e mais de uma centena de crônicas escritas), e líder do Grupo de Pesquisa em Química Teórica e Computacional (GQTC-UFAM/CNPq), e o atual vice-presidente da Sociedade Brasileira de Design Inteligente (TDI-Brasil). É membro da Igreja Batista Raízes, em São Carlos/SP, atuando em Manaus/AM, na igreja Batista Constantinopolis, como palestrante, pregador ocasional e responsável por um programa na ConstantTV sobre fé e ciência. É casado e tem duas filhas alegres e curiosas.
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Excelente artigo.Parabens, Dr Kelso