Púrpura para mercadores; Sangue para pecadores
- Luana Batista

- há 12 minutos
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A cidade litorânea de Tiro era a principal fornecedora de um corante de origem animal conhecido como púrpura tíria, tão famoso e valorizado nos tempos do Império Romano. Entretanto, seu uso é ainda mais antigo; há registros de sua fabricação por parte dos fenícios desde 1500 a.C. Pela dificuldade da produção dessa cor tão peculiar, e seu custo, houve um tempo em Roma que somente o imperador e sua família poderiam utilizar tecidos tingidos de púrpura e, a punição para quem desobedecesse, era a morte.
A composição da tintura de tom roxo-avermelhado era resultante de um passo a passo malcheiroso e insalubre, que impregnava as roupas com um odor fétido. Cumpria-se um processo químico bem elaborado a partir de uma matéria prima inusitada: caramujos marinhos. O mar Mediterrâneo é o habitat ideal para essa espécie de molusco conhecido como Murex e suas subespécies.
Esse pequeno marisco carnívoro e predador, prefere águas pouco profundas e fundos lodosos e arenosos. Quem poderia imaginar que, a despeito de sua pouca fertilidade, o mar Mediterrâneo poderia abrigar, um pouco abaixo da superfície, um tesouro quase tão precioso quanto o ouro. O Murex possui uma pequena glândula que ao ser extraída e macerada produz um líquido incolor e viscoso que, ao entrar em contato com a luz solar, tem sua cor alterada.
Eram necessários mais de 10.000 moluscos para produzir cerca de um grama e meio de tinta capaz de colorir uma pequena peça de tecido. Entre o processo de extração e produção da cor, os Murex eram esmagados e deixados apodrecer com urina e água do mar sendo fervido por dias. Se faziam necessárias várias lavagens e molho em essências e perfumes para mascarar o característico cheiro de peixe podre que era um distintivo da qualidade e originalidade do mais prestigiado tecido de púrpura. Outra particularidade da referida cor é que ela se tornava ainda mais viva cada vez que a peça era lavada e exposta ao sol.
Na Bíblia o uso da púrpura vem desde as vestes sacerdotais no Antigo Testamento, até ao manto que os soldados romanos colocaram sobre Jesus após o coroarem de espinhos. Mas, uma história em particular é registrada em Lucas 16 durante a segunda viagem missionária de Paulo. Nos versículos 11 a 15 é relatado o encontro do apóstolo e seus parceiros de viagem com um grupo de mulheres à beira do rio na cidade de Filipos.
Entre as mulheres que se encontraram para orar estava Lídia, referenciada como vendedora de púrpura da cidade de Tiatira. A cidade de Tiatira estava localizada na Ásia Menor e se tratava de um avançado centro comercial e manufatureiro, além de abrigar uma bem estruturada guarnição militar. Era conhecida por seus tecidos roxos delicadamente trabalhados em bronze, o que fazia das roupas comercializadas por Lídia ainda mais refinadas e valorizadas.
Essa comerciante rica e influente não era judia de nascimento; como uma prosélita que abraçara o judaísmo, não se envergonhava, apesar de sua posição social, de se encontrar com os poucos judeus para orar no lugar que os romanos haviam designado para isso: fora da cidade, às margens do rio.
Por sua vez, Paulo e Silas impedidos pelo Espírito de prosseguir viagem pela Ásia, são guiados para a Europa. A porta de entrada da Europa para viajantes vindos da Ásia era a cidade de Filipos, uma colônia romana com os mesmos direitos e privilégios de uma cidade dentro da Itália. No sábado eles se encontraram às margens do rio e Lídia pôde ouvir sobre a salvação em Jesus; ao ouvir sobre as boas novas, logo se converteu e foi batizada com toda a sua casa.
Ao compreender claramente o evangelho, Lídia logo se pôs a servir sendo hospitaleira recebendo os missionários em sua casa. É o primeiro registro de conversão na Europa e sua casa o primeiro local a reunir cristãos. Intrigante que a primeira conversão na Europa tenha sido justamente de uma mulher vinda da Ásia. O mais importante, contudo, é notar que o coração dela foi tão genuíno ao receber a fé em Cristo que compreendeu que tudo quanto tinha pertencia à Ele, o colocando ao Seu serviço.
Mesmo depois que Paulo e Silas foram presos, Lídia os serviu na prisão e os recebeu novamente em sua casa após serem libertados. Ela não estava preocupada com o julgamento das pessoas ou com o quanto isso impactaria seus negócios; para ela, servir a Deus era mais importante do que as aparências ou a opinião dos outros.
À semelhança dos tecidos comercializados por ela, quanto mais exposta a luz de Jesus ainda mais vibrante e pura se tornava sua fé. Mesmo após Paulo seguir com sua viagem, Lídia permaneceu firme na fé e uma contribuinte assídua da obra missionária. Sua liberalidade, hospitalidade e fé são exemplos de um coração verdadeiramente convertido e submisso a Deus e à Sua Palavra.
Anos antes de Lídia trabalhar com púrpura, Aquele de quem ela abraçara a fé, tinha sido ridicularizado com uma coroa dolorosa e vestido, contraditoriamente às intenções, com vestes nobres e reais. O Cordeiro de Deus, limpo e sem pecado, foi sacrificado; o Sumo Sacerdote, santo e irrepreensível, adentrou o Santuário e anulou o véu; o Rei dos reis com o corpo lacerado e o sangue vertido pôde estender salvação a povos de toda língua e nação, a homens e mulheres, ricos e pobres; a todos quantos reconhecem sua condição apodrecida em pecado e recebem o Seu sacrifício se vestindo de santidade e amor.
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Luana Batista
IBC - Dourados (MS)
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